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Dálmata que atende pelo nome pode ser surdo de um ouvido

Wilson Bachega Junior

Quem vai buscar um filhote de Dálmata quase sempre repete o mesmo ritual, e Wilson Bachega Junior, entusiasta da raça, conhece bem a cena: alguém bate palmas atrás do cachorro, ele vira a cabeça e todos saem tranquilos. O gesto parece suficiente, mas deixa passar justamente o caso mais comum de surdez em Dálmatas.

A raça é a que tem maior prevalência registrada de surdez congênita entre os cães, e boa parte dos animais afetados escuta perfeitamente por um dos ouvidos. Esse detalhe muda a forma de avaliar um filhote. Veja mais sobre o assunto a seguir.

Por que o teste das palmas engana?

Um filhote surdo de um lado atende pelo nome, se assusta com a porta batendo e corre quando ouve o pacote de ração. Para quem observa em casa, ele é idêntico a um cão que ouve com os dois ouvidos. O teste caseiro só flagra com alguma segurança a surdez bilateral, quando o animal não reage a som nenhum.

Há ainda o erro no sentido contrário. Alguns filhotes com audição normal respondem pouco a estímulos sonoros e acabam rotulados como surdos sem motivo. Wilson Bachega Junior, nesse ínterim, comenta que essa dupla margem de erro explica por que a palma não deveria encerrar a conversa com o criador.

O que é a surdez congênita da raça?

Trata-se de uma surdez neurossensorial, ligada aos genes que produzem a pelagem branca. Sem pigmento em regiões específicas do ouvido interno, as células responsáveis pela audição degeneram nas primeiras semanas de vida. A perda, quando ocorre, é total naquele ouvido: não existe meio-termo nem tratamento.

Os números explicam a atenção dos criadores. Levantamentos com cerca de mil cães cada, feitos nos Estados Unidos, apontaram aproximadamente 22% de Dálmatas surdos de um ouvido e 8% dos dois. Somados, chegam a cerca de 30% da raça, e quase três em cada quatro afetados ouvem normalmente de um dos lados, justamente o grupo que escapa ao teste caseiro. Na Europa, as taxas costumam ser menores.

Olhos azuis e mancha de nascença: o que os sinais indicam?

Parte dessa diferença europeia tem relação com um traço visível. Os olhos azuis aumentam o risco de surdez, e vários países excluíram essa característica do padrão da raça. Já a mancha pigmentada, presente desde o nascimento, geralmente na cabeça, aparece associada a um risco menor.

Wilson Bachega Junior
Wilson Bachega Junior

A cor das pintas, marrom ou preta, não faz diferença, assim como o tamanho delas. Na avaliação de Wilson Bachega Junior, o erro está em transformar essas associações estatísticas em diagnóstico: um Dálmata de olhos azuis pode ouvir bem, e outro de olhos castanhos pode ser surdo.

Como o exame BAER resolve a dúvida?

O potencial evocado auditivo de tronco encefálico, conhecido pela sigla BAER, mede a resposta elétrica do cérebro a cliques emitidos em cada ouvido separadamente. Eletrodos finos registram o sinal, e o cão não precisa colaborar, o que torna o teste viável ainda filhote. Em programas de triagem, os filhotes costumam ser testados entre quatro e dez semanas de idade.

O exame tem peso sobretudo para a reprodução. Um cão surdo de um ouvido vive muito bem como companhia, mas, cruzado com outro portador, pode gerar filhotes totalmente surdos. Wilson Bachega Junior observa que pedir o laudo dos pais e da ninhada é a pergunta mais útil a fazer antes de fechar negócio.

Uma raça que se protege pelo exame

No Reino Unido, um estudo com dados do Kennel Club encontrou queda na prevalência da surdez em Dálmatas ao longo dos anos, atribuída à seleção de reprodutores que ouvem bem. O resultado mostra que o problema, embora hereditário, responde a escolhas feitas geração após geração.

Conforme pontua Wilson Bachega Junior, a saúde auditiva da raça depende menos do olhar treinado de quem compra e mais de um registro técnico feito antes do primeiro passeio. Cada laudo exigido pelo comprador empurra os criadores na direção certa, e o efeito aparece nas ninhadas seguintes.

 

Ines Bellier

Ines Bellier

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