A cognição do idoso é um tema que interessa a quase todas as famílias brasileiras, mas que ainda gera muita confusão entre o que é envelhecimento normal e o que merece investigação clínica urgente. O doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, trata a saúde cognitiva como uma das dimensões mais estratégicas do acompanhamento geriátrico. Isso porque esquecer onde colocou as chaves é diferente de esquecer para que servem as chaves. Essa distinção, aparentemente simples, é clinicamente decisiva para o diagnóstico cognitivo do idoso.
Ao longo deste artigo, você vai entender o que protege o cérebro do idoso, o que acelera seu declínio e por que o diagnóstico precoce muda tudo. Leia com atenção.
O que a neurociência do envelhecimento revela sobre a memória?
O cérebro humano começa a apresentar mudanças estruturais mensuráveis a partir dos 50 anos. A velocidade de processamento diminui, a memória de trabalho perde eficiência e a recuperação de informações específicas, como nomes, demora mais. Tudo isso é fisiológico. O que não é fisiológico é a perda de memória episódica recente que interfere no funcionamento cotidiano, a desorientação em ambientes familiares ou a incapacidade progressiva de realizar tarefas que antes eram automáticas.
O doutor Yuri Silva Portela nota que o problema mais frequente não é o diagnóstico tardio da demência, que seria inevitável de qualquer forma. Mas é o diagnóstico tardio do comprometimento cognitivo leve, um estágio intermediário no qual intervenções ainda têm capacidade real de retardar a progressão. Por isso, identificar esse estágio exige avaliação cognitiva estruturada que a consulta convencional raramente inclui.
Além disso, o que mais acelera o declínio cognitivo são fatores tratáveis: hipertensão não controlada, diabetes descompensado, depressão não diagnosticada, isolamento social, sedentarismo e sono de má qualidade. Considerando cada um desses fatores, isoladamente, já representa um risco significativo. Contudo, quando combinados, são um cenário clínico que exige ação imediata e coordenada.
Quais hábitos protegem a cognição ao longo do envelhecimento?
A resposta é menos sofisticada do que a maioria das pessoas espera. Exercício físico regular, especialmente aeróbico, é a intervenção com maior evidência para proteção da função cognitiva. Já que ele aumenta o fluxo sanguíneo cerebral, estimula a neurogênese e reduz marcadores inflamatórios associados às demências. Trinta minutos de caminhada por dia já produzem impacto mensurável ao longo de meses.

O estímulo intelectual é igualmente importante, mas precisa ir além das palavras cruzadas. Desse modo, aprender algo genuinamente novo, seja um instrumento musical, um idioma ou uma habilidade manual, ativa circuitos cognitivos que atividades rotineiras não alcançam. A socialização também protege, e de forma mais potente do que se imagina: idosos com redes de relacionamento ativas apresentam taxas de declínio cognitivo significativamente menores.
Alinhado ao que aponta o doutor Yuri Silva Portela, o sono merece atenção especial nessa equação. Durante o sono, o cérebro realiza processos de consolidação da memória e eliminação de proteínas tóxicas associadas ao Alzheimer. Portanto, um idoso que dorme mal cronicamente não está apenas cansado. Mas está privado de um processo de manutenção cerebral que não tem substituto.
O que o Humaniza Sertão faz pela saúde cognitiva nas comunidades?
Nas comunidades do sertão de Quixadá, os neuropsicopedagogos e médicos do Humaniza Sertão realizam avaliações cognitivas que frequentemente revelam comprometimentos que nunca tinham sido identificados. Para muitos desses idosos, aquela é a primeira vez que alguém investiga sistematicamente como está sua memória, sua atenção e sua capacidade de raciocínio.
Conforme destaca o fundador do projeto social Humaniza Sertão, o doutor Yuri Silva Portela, identificar um comprometimento cognitivo leve numa comunidade rural sem acesso a especialistas não encerra o processo. Ele o inicia. As famílias recebem orientações sobre estimulação cognitiva adaptada ao contexto local, sobre fatores de risco tratáveis e sobre quando buscar aprofundamento no diagnóstico. Com isso, o conhecimento transferido tem impacto que persiste muito além do dia de ação.
Cuidar da cognição é cuidar da identidade
O doutor Yuri Silva Portela acredita que preservar a cognição do idoso é preservar o que o torna quem ele é. Não espere que os sinais se tornem óbvios. Inclua avaliação cognitiva no acompanhamento geriátrico regular do idoso que você ama. Essa é uma das decisões preventivas de maior impacto disponíveis hoje.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

